Sensoriamento desde os tempos Remotos

5

Gostaria de interagir com vocês neste primeiro contato, dividindo meus interesses pessoais e profissionais, onde navego com verdadeiro fascínio nas áreas de Recursos Hídricos; Agricultura Familiar; Comunidades Rurais; Bacias Hidrográficas; Erosão do Solo; Engenharia Ambiental, Biologia, Astronomia, Geografia, “Trekking” pela Natureza, ainda mais agora, residindo no estado do Espírito Santo, com paisagens deslumbrantes… É realmente difícil separar o pessoal do profissional no meu caso, pois tenho verdadeira paixão pelo que faço.

Tenho por hábito a leitura diária e sobre vários assuntos. E pensando num tema (entre vários) para compartilhar, recordei de um livro que chamou minha atenção, onde, muitos de vocês, provavelmente já leram. Mas, acredito que vale relembrar e quem sabe render uma boa discussão.

Este foi o começo de tudo (2010) onde “esbarrei” pela primeira vez, com o Sensoriamento Remoto.

The_Ghost_MapEnvolvente é a palavra para descrever este livro que mais parece um filme de suspense, prende a atenção do início ao fim, com um tema totalmente científico relatando uma epidemia no ano de 1854. É uma história com quatro personagens: uma bactéria mortal, Londres e dois homens habilidosos, mas divergentes. Em uma semana sombria, suas vidas se confrontaram em meio ao pânico e sofrimento humano na Broad Street, extremo oeste do bairro do Soho.

Sendo Londres uma cidade plana e em crescimento, levar o carregamento de fezes até o perímetro agrícola da cidade significava fazer uma viagem cada vez mais longa, o que encarecia o serviço e aumentava os rendimentos dos limpadores. Nem todos podiam pagar, o que ocasionava no acúmulo de excrementos em porões que transbordavam. Londres estava completamente submersa em merda.

Para piorar as coisas, os indigentes mortos aos milhares pelo cólera eram amontoados em cemitérios a céu aberto. O livro descreve o confronto entre duas hipóteses para tentar elucidar a doença e vencê-la: a teoria miasmática de Edwin Chadwick, do Comitê Geral de Saúde (1848), para que tudo que cheirasse mal fazia mal. E a teoria da propagação do cólera pela água, de John Snow, médico anestesiologista estabelecido no Soho.

Milhares morreram, pois o medo da epidemia os cegou para os verdadeiros perigos da cidade e os levou à realização de uma série de reformas mal gerenciadas que apenas intensificaram a crise.

A água e detritos da fossa contaminada, que estavam limitados à Broad Street, foram parar no Rio Tâmisa e dispersaram-se. A ânsia de descobrir e segregar a causa dos males e doenças frequentemente predispõe a erros e as soluções saem pela culatra e agrava o quadro.

Ao longo deste período epidêmico, o médico John Snow fazia a leitura constante dos Registros de Nascimento e Óbito que William Farr, do Departamento de Registros Gerais, tão meticulosamente apresentava. Snow passou a marcar os casos de óbito no mapa da cidade. Simultaneamente o pároco Henry Whitehead, em visitas aos seus fiéis, relatava as ocorrências minuciosamente.

Nenhum deles estava esclarecido sobre a presença do vibrião, mas relacionaram (pelo mapa e por histórias) que o cólera de alguma forma se disseminava pela água da bomba da Broad Street, que era então muito procurada por oferecer uma água límpida e de bom paladar. A bomba foi lacrada e escavações feitas em seguida constataram que o poço ficara infectado por uma fossa nas imediações, onde se lançava os excrementos das pessoas coléricas.

Observando o mapa, fico imaginando a habilidade dos responsáveis pela confecção do mesmo naquela época, sem contar com sensores, radares, satélites, GPS etc., apenas e prontamente com a ciência de investigar, vigiar, testemunhar em meio a tanto caos.

John_Snow_Map 1 menor Mapa 2menor

Como mencionado anteriormente, nesta região haviam treze poços para o fornecimento de água e no mapa é possível verificar doze deles com retângulos, e o principal, com o foco do vibrião, com um círculo menor no ponto (poço), um maior referenciando o possível perímetro afetado e setas apontado para a Broad Street.

Fica evidente a maior ocupação de edificações/casas nesta região e consequentemente uma imensidão de pessoas circulando na área, abastecendo-se “de uma água límpida e de bom paladar”, desconhecendo o grande vilão que ali proliferava-se.

Roadwick Street (anteriormente Broad Street) é uma rua em Soho, Cidade de Westminster, em Londres. Uma réplica da bomba d’água, juntamente com uma placa explicativa, foi erguida em 1992, próximo ao local original.

Qual a relação que vejo entre Sensoriamento Remoto, o livro The Ghost Map e os dias atuais?

Em meio a tantas tecnologias hoje em dia no nosso país, “82,5% dos brasileiros são atendidos com abastecimento de água tratada, porém, mais de 35 milhões não tem acesso a este serviço básico (ITB, 2016) ” no meu ponto de vista é incabível.

Há 162 anos atrás, estes desbravadores/pesquisadores John Snow e Edwin Chadwick, apresentaram o que provocou a epidemia em Londres, e apressaram-se em solucionar o problema.

Mas, o que “entrava” o serviço mais básico no Brasil, essencial para qualquer nação?

Em 2013, de acordo com o Ministério da Saúde (DATASUS), foram informadas mais de 340 mil internações por infecções gastrintestinais no país, 2.135 morreram no hospital por causa das infecções. Com o saneamento, haveria redução de 329 mortes (ITB, 2016).

Se observarmos toda poluição somente nos nossos Rios, Bacias Hidrográficas, etc., estamos numa situação similar ao Mapa Fantasma, numa escala distinta.

Hoje em dia temos vários experts que podem auxiliar o governo municipal, com o Sensoriamento Remoto, aplicação de técnicas de geoprocessamento para desempenhar as aplicabilidades inseridas no saneamento, em várias regiões, de uma forma simples e eficaz, proporcionando economia de recursos, tempo e exatidão na tomada de decisões. Associando dados de fontes distintas, imagens de satélite, mapas cadastrais, mapas topográficos, mapas de solos, susceptibilidade a erosão, áreas de risco, etc., em várias escalas, sob a forma de mapas temáticos com as informações esperadas.

Enfim, este foi apenas um breve resumo de um livro com aproximadamente 200 páginas que recomendo, e, Boa Leitura!

Deixo aqui o meu fraterno abraço e espero discussões, críticas, sugestões para este e outros assuntos.

5 Comentários

  1. Olá Beatriz.
    Como contribuição: acho super interessante lembrar deste que é um dos primeiros trabalhos de análise espacial, realizado sem “nenhuma” técnica como temos hoje a disposição. E você o descreveu lindamente!
    Somente acredito que no título deve ter havido confusão entre o que foi exposto no texto (Geoprocessamento) e o conceito de Sensoriamento Remoto.
    Vale ressaltar que nesse exemplo/caso, pontualmente não se está falando de sensoriamento remoto (propriamente dito), mas sim de análise espacial, de geoprocessamento. O sensoriamento remoto é somente uma técnica de aquisição de dados por sensores, sem contato com o objeto, e que podemos utilizá-la em geoprocessamento. A análise espacial, é geoprocessamento.
    Sobre estas sobreposições em conceitos dentro das geotecnologias, o prof. Jorge Xavier da Silva detalha bem as diferenças em um artigo “O que é Geoprocessamento”.

  2. Bom dia Aline!
    Muito grata pela contribuição!
    Como disse no texto… “Mas, acredito que vale relembrar e quem sabe render uma boa discussão….”
    E é disto que eu gosto. Discutir e aprender sobre o assunto.
    Você tem razão quanto ao título não estar no contexto. Ou, realmente mudar o título.
    Faltou relatar que devido ao evento do cólera e muitos outros no mundo todo, chegamos a tantas tecnologias, como o sensoriamento remoto, análise espacial, geoprocessamento, entre outros, para aprimorar nosso trabalho.
    Com certeza no próximo artigo, lembrarei de suas dicas e fico feliz por ser minha leitora.
    Fraterno abraço.
    Beatriz

  3. Que bacana Bia! Infellizmente não li o livro (AINDA!), mas já me interesso em ler essa obra! Me identifiquei com o problema do acesso ao saneamento básico. De certa forma, abordarei isso na minha tese, cujo tema será ciclagem de nitrogênio na Bacia do Rio Grande (afluentes mineiros). A área ambiental é apaixonante mesmo! Conhecer você e ver onde chegou é uma tremenda injeção de ânimo. Apesar de a pesquisa não ser trivial no Brasil, fazemos o que gostamos e sabemos o quanto podemos contribuir para um país melhor! Parabéns e muito sucesso!

  4. Parabéns pelo texto Bia!!!
    Um professor de Geotecnologias apresentou a história deste livro numa aula do mestrado em Saneamento Ambiental e Recursos Hídricos que estou fazendo na UFMS.
    Nele vemos a necessidade de iniciativas preventivas ao invés de remediativas, principalmente quando o assunto é recursos naturais, principalmente recursos hídricos, quanto mais o subterrâneo, cuja remediação é muito dificultada e cara, dependendo do caso, praticamente impossível.
    E também vemos a importância do sensoriamento remoto no monitoramento e planejamento de ações, sendo uma prioridade frente às necessidades de sanemanto básico para a população e quanto ao saneamento ambiental.
    Também vemos um povo sem tecnologia fazendo melhores descobertas que muito cientista hoje kkkkkk

  5. Bia, quero deixar aqui os meus parabéns. Estou maravilhada pelo seu belíssimo trabalho, eu estou muito orgulhosa de você! Te desejo todo o sucesso do mundo!
    Abraços minha querida

DEIXE UMA RESPOSTA