Geoprocessamento: exceção à regra na indústria de TI brasileira

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Após mais de 20 anos acompanhando e trabalhando no setor de TI no Brasil, percebo que o segmento específico do geoprocessamento vem quebrando o padrão desta indústria, que é o de sermos consumidores de tecnologia e praticamente não gerarmos tecnologia da informação no país, apesar das inúmeras universidades e escolas técnicas existentes e dos milhões de profissionais capacitados e experientes no setor.

No caso específico do geoprocessamento, verificamos que vários profissionais, empresas, órgãos públicos e até mesmo universidades estão gerando tecnologia e não simplesmente comprando licenças de uso de produtos existentes. Curioso este fato, mas explicado por alguns fatores que cito abaixo:

  • O tamanho e a diversidade do território brasileiro e de suas unidades geopolíticas;
  • A complexidade da nossa legislação ambiental, códigos municipais de posturas, etc;
  • A riqueza da biodiversidade brasileira e a frágil relação existente entre ela e a ação do homem;
  • A heterogeneidade e os graves problemas de desigualdade na sociedade brasileira.

Esses fatores mostram que os requisitos tanto do desenvolvimento quanto os de processamento das aplicações geoprocessadas são bastante peculiares e desafiadores no contexto brasileiro, o que obriga os profissionais do setor terem que pensar “fora da caixa” a fim de atenderem as demandas que se apresentam, principalmente as oriundas do setor público. Os desafios são tão grandes que não é possível resolvê-los simplesmente na camada das aplicações GIS, mas necessariamente revisitar, ou melhor, repensar os principais componentes da plataforma tecnológica que suporta as aplicações, no caso: banco de dados geográfico, servidor de mapas, servidor de imagens, servidor de aplicações; oportunamente tentarei abordar especificamente cada aspecto dessa arquitetura. Mas voltando ao tema, acredito que estes fatores somados aos altos custos de propriedade dos softwares GIS tradicionais nos obrigam a ser criativos a fim de viabilizarmos técnica e financeiramente os projetos corporativos de geoprocessamento no Brasil.

A partir do emprego de softwares livres e de seus complementos temos visto uma série de projetos extremamente desafiadores avançarem, como por exemplo: CAR do MMA, SISCOM do IBAMA, Inteligeo da Polícia Federal, ou seja, isso demonstra que tecnologia está sendo criada em nosso país na área de geoprocessamento. O que precisamos agora é organizar todo este acervo intelectual disperso entre os profissionais (normalmente alocados em pequenas e médias empresas) de uma maneira que este ativo crie maior valor nas empresas, ao invés de simples e pontualmente caixa.

Neste ponto, considero que o governo brasileiro peca na medida em que não valoriza na prática o produto tecnológico produzido no país. Invariavelmente, para comprar software brasileiro a modalidade de contratação recai sob a forma de alocação de recursos técnicos, o que não permite que o verdadeiro valor da tecnologia seja registrado, além de balizar por baixo todo o conjunto empresarial (infraestrutura, equipe técnica que cria a solução, financiamento e reinvestimento contínuo, etc.).

O que vemos em relação as tecnologias importadas são aquisições, por vezes milionárias, de licenças de uso onde sequer 01 hora de trabalho brasileira é empregada, portanto, muito longe de serem a real solução para as demandas que se apresentam! Por favor, não tenho intenção de executar nenhum discurso xenófobo, muito longe disto; o que quero alertar é sobre a real possibilidade e dificuldade que temos para inserir as empresas brasileiras como geradoras de tecnologia da informação e o que afirmo, taxativamente, é que o geoprocessamento é uma das poucas especializações onde ainda há uma “janela aberta” para isso.

Definitivamente, nosso ponto forte não é Planejamento Estratégico (em grande parte explicado pela instabilidade socioeconômica do nosso país). Na qualidade de médio empresário de uma empresa que se propõe a ser inovadora, convivo com a frustração de não conseguir persistir em um plano (quem diria uma estratégia…) por mais de 06 ou 08 meses, pois em um momento existe financiamento, no momento seguinte não existe mais; ora lidamos com uma carga tributária, alguns meses depois esta carga aumentou, e assim é com a taxa de juros, com o câmbio, ou mesmo com as fortes variações do “humor” daqueles que compõem a sua equipe, pois de uma maneira geral, o brasileiro está insatisfeito com a vida que leva e as empresas acabam absorvendo grande parte desta insatisfação.

Assim chegamos facilmente a conclusão de que a estabilidade econômica é um pré-requisito para que a inovação ocorra de forma continua e estruturada, e não por um golpe de sorte em casos pontuais. Outros fatores também afetam a nossa falta de vocação e de persistência na busca por objetivos maiores; gostaria de mencionar um exemplo que na minha opinião é determinante: a maneira como formamos profissionalmente os nossos jovens é totalmente afastada da demanda das respectivas indústrias do mercado. As universidades brasileiras e o mercado estão totalmente desalinhados, o que reflete diretamente na produção desses jovens, mas o que mais me preocupa é atitude dos jovens que desde antes mesmo de iniciarem seus cursos tencionam a obtenção da “estabilidade” financeira por meio do ingresso em algum órgão público e o incrível é que a sociedade brasileira (família, escola, o próprio governo, etc) estimula essa atitude.

Analisando países como os Estados Unidos, Inglaterra e Alemanha, verificamos que os jovens sonham em obter sucesso em suas carreiras inseridos em empresas reconhecidamente geradoras de tecnologias, ou melhor, INOVADORAS. Aqueles que se sentem ainda mais confiantes em suas próprias visões apostam na possibilidade de empreender e, ao invés de venderem sua força de trabalho, tentam vender suas ideias. Ou seja, é exatamente o contrário do que verificamos no Brasil. Isso explica, por exemplo, um recente dado publicado que relata que trabalhador americano é 4 vezes, em média, mais produtivo que o brasileiro; na minha visão não é simplesmente pela formação técnica, mas principalmente pelo doutrinamento equivocado dos nossos jovens. Vale a pena conferir alguns artigos publicados sobre este tema:

http://exame.abril.com.br/revista-exame/edicoes/1025/noticias/agora-vem-a-parte-mais-dificil ,

http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2015/05/1635927-1-trabalhador-americano-produz-como-4-brasileiros.shtml

Recomendo a leitura desta análise bem mais ampliada, elaborada pela BBC Brasil:

http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2014/05/140519_produtividade_porque_ru

Pois bem, volto a afirmar que no nosso pequeno nicho do geoprocessamento e do sensoriamento remoto temos a chance de inverter a espiral que verificamos na maioria dos outros setores das indústrias brasileiras pois neste setor as peças componentes da arquitetura ainda não estão bem encaixadas e nós temos uma experiência e desafios ímpares. Temos a chance de nos fazer respeitar mundo a fora, mas primeiramente temos que romper a nossa própria inércia e assim quebrar o grande paradigma de sermos consumidores e passarmos a ser geradores de tecnologia.

 

 

3 Comentários

  1. O texto é interessante, mas não concordo com o posicionamento do autor sobre a questão do “doutrinamento dos jovens” e do desalinhamento das Universidades com o mercado. Sou formado em uma Universidade Pública e o que mais vejo são jovens saindo dessas Universidades e sendo absorvidos por grandes empresas no setor de Geoprocessamento, Petróleo entre outras, além de montarem suas empresas. Várias empresas, todos os anos, organizam eventos dentro das universidades oferecendo estágios; montam parcerias com essas Universidades para a produção de pesquisa (ex.: COPPE-UFRJ). Além disso, boa parte do que se produz no Brasil e que, posteriormente, é absorvido no mercado de trabalho vem dessas Universidades e, principalmente, as Públicas, por isso não consigo compreender o posicionamento do autor em afirmar que existe um desalinhamento das Universidades com o mercado de trabalho. Também não concordo quando o autor destacou que a família, a escola e o próprio governo estimula os jovens para a busca de trabalhos em órgãos públicos. Pra ele afirmar isso, deveria colocar algumas fontes de pesquisas que mostram que esse esse tipo de “doutrinamento” existe nas escolas, nas famílias e no governo, do contrário, o autor apenas está colocando a opinião dele baseada em nenhuma fonte. Particularmente, nunca vi nenhuma pesquisa sobre “Doutrinamento dos jovens para trabalhar em órgãos públicos”. Fora estes detalhes, gostei do texto. Peço desculpa por discordar de algumas posições do autor.

  2. Prezado Rafael,

    Agradeço a sua crítica devidamente embasada e estruturada e, por favor, não peça desculpas por ela pois a discordância ou melhor, o contraponto é importantíssimo para evoluirmos os nossos pensamentos e avaliações. Realmente agradeço sua atenção, você me ajudou!
    A partir das suas considerações cabem 2 esclarecimentos da minha parte:
    1) Os artigos que tenho escrito são essencialmente baseados na minha visão e experiência de mercado portanto não são científicos por esse motivo não aplico nenhum método específico, são apenas minhas impressões;
    2) Você já deve ter ouvido uma expressão popular bastante comum: “quem generaliza comete pecados”; com certeza cometi pecados em relação a determinados cursos superiores pois concordo que temos excessões a, na minha visão, regra nas instituições de ensino superor brasileiras. Por exemplo você lembrou muito bem a COPPE, assim como o ITA, alguns cursos da USP, da UNICAMP, da UFMG e com certeza mais alguns pelo Brasil; mas mantenho minha opinião que apesar destas exceções, infelizmente o grande volume de cursos superiores brasileiros são extremamente frágeis em relação as suas respectivas qualidades e por consequência ao tipo de formação que estão ministrando aos nossos jovens que por sua vez acabam “sonhando” com a estabilidade do funcionalismo público, diante a dificuldade de outras conquistas.
    Sobre as empresas recrutarem jovens nas universidades isto é uma verdade, até mesmo porque estamos no Brasil e vivemos a partir do mercado brasileiro, ou seja, nos adequamos ao padrão de qualidade que nos é possível. Mas volto a afirmar sem medo de errar, baseado na minha experiência como executivo de empresas de todos os portes e pequeno empresário, o setor de TI nunca conseguiu preencher todas as vagas abertas, mesmo nos momentos das piores crises, e “vira e mexe” quando preenchemos uma vaga lembramos de outra expressão popular: “quem não tem cão, caça com gato”.
    Mais uma vez agradeço sua atenção, vamos fomentar o debate é isso que nos faz crescer,

    Leonardo

  3. Parabéns ao texto. Muito conveniente e dando luz ao destaque do geoprocessamento no mundo da TI. Porém, também não concordo com os destaques ao “doutrinamento dos jovens” e do desalinhamento das Universidades com o mercado. A maior parte dos responsáveis pelo destaque que o geoprocessamento vem tendo no mundo da TI, justamente o que o autor destaca no artigo, são os formados nas universidades públicas brasileiras.
    Eu penso em outra perspectiva. Se o setor de geoprocessamento vem se destacando no mundo da TI, inclusive quebrando o padrão desta indústria, é porque os centros formadores destes profissionais tem se destacado. Arrisco a dizer inclusive que a carga teórica destes cursos é o que ajuda no pensamento inovador e de vanguarda que os profissionais vêm demonstrando ao entrar no mercado. Então, dentre os fatores citados pelo autor como responsáveis por tal destaque eu incluo a boa formação dos profissionais em nossas universidades. Lógico que muita coisa pode melhorar em nossa universidade, mas estou certo de que elas não são parte do problema, e sim ajudam a pensarmos na solução.
    Concordo plenamente quando o autor destaca que falta ousadia ao nosso setor privado. Lógico que tem grandes problemas em nosso Estado, mas um pouco de ousadia faria bem à iniciativa privada brasileira, que está acostumada apenas a apontar o dedo ao estado “malvadão”, mas que nos momentos de bonanza econômica (e foram quase 10 anos) parece não fazer direito o dever de casa. Por fim, comparar a nossa situação com países desenvolvidos é injusto. Devíamos estar nos comparando com países em desenvolvimento.
    Abraços e seguimos no debate saudável.

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