Não existe receita de bolo para uma solução de geoprocessamento

0

Primeiramente, vou pedir licença aos especialistas em Geoprocessamento e Sensoriamento Remoto, com certeza a maioria da audiência deste portal, pois gostaria de aproveitar este espaço e me dirigir ao público que tem se aproximado desses temas mais recentemente, normalmente formado por executivos da área de TI ou mesmo das áreas de negócio de diversas organizações, na intenção de tentar contribuir com algumas observações e recomendações.

Nos últimos 2 anos, principalmente, tenho sido abordado por profissionais, normalmente em função executiva, que buscam informações sobre como o geoprocessamento pode agregar valor às suas respectivas operações, ou melhor, quais informações são possíveis de se extrair dos “sistemas de GEO”, sendo que em quase 100% das vezes o termo sensoriamento remoto não é conhecido, geralmente a denominação genérica empregada é simplesmente “GEO”.

O anseio para encontrar uma solução completa de ponta a ponta, de acordo com as necessidades específicas demandadas pelas suas operações é compreensível, pois este público está acostumado com soluções “empacotadas” presentes e bastante maduras no mercado, do tipo: ERP (Gestão Empresarial Integrada), CRM (Gestão do Relacionamento com Clientes), GED (Gestão de Documentos) e mais algumas outras dezenas de soluções de gestão de algum tema específico. Acredito que o primeiro ponto importante a se notar é que no amplo e recente, no que tange ao domínio público, tema do Geoprocessamento as ofertas de pacotes de soluções aplicadas ainda são bastante restritas. Desta forma, a primeira conclusão é que invariavelmente a solução pretendida terá que ser estruturada, ou melhor, concebida pelo cliente de acordo com as suas necessidades específicas.

Ressalvando raras exceções no mercado fornecedor de “GEO”, o que se verifica são empresas que fornecem partes da solução, como por exemplo: licença de uso de um software, imagem de satélite, aerofotogrametria, serviços de desenvolvimento de software GIS, equipamentos de geodésia, equipamentos de topografia, serviços de levantamento de dados do campo, serviços de processamento/ interpretação das imagens adquiridas, e não a solução completa e integrada. Dificilmente encontraremos no mercado uma empresa capaz de prover uma solução de ponta a ponta, dessa forma exigindo da parte do potencial cliente um maior empenho na busca pela concepção da solução pretendida.

Quando a solução necessita de imagens como meio de aquisição dos dados para gerar a informação de valor à operação, é comum ouvir a pergunta: “Que tipo de imagem é ideal para monitorar o assunto X?”. Com certeza é uma pergunta primordial, mas é necessário que venha acompanhada de algumas outras, do tipo: Qual o tamanho da área de interesse? Quais as variáveis ou alvos que deverão ser detectados e com qual precisão? O monitoramento se dará de forma recorrente ou pontual? Qual a frequência necessária para atualização das informações? Quais as condições climáticas (nível de cobertura de nuvens sobre a área de interesse)?

Sem que haja um conjunto de questionamentos a fim de determinar claramente o objetivo demandado e todas as variáveis que necessitam ser consideradas para se alcançar o objetivo, a experiência poderá ser frustrada. Aqui vale um alerta óbvio, mas mesmo assim vou relembrá-lo: o cliente dependendo da “porta que bate” compra o objeto de interesse direto da venda daquele comércio, o que não necessariamente atenderá plenamente a sua requisição. Por exemplo, um caso bastante comum é a aquisição de imagens ópticas que não satisfazem plenamente o negócio do cliente, pois normalmente são somente a “ponta do iceberg”. Por outro lado, temos a venda licenças de uso de softwares famosos no mercado de “GEO”, como por exemplo: ArcGIS, Oracle Spatial, Erdas, etc; todos excelentes, mas não se deve ter uma visão precipitada achando que estes por si só irão resolver alguma situação. Faço essa observação pois é fato, nas interações que tenho realizado, verificar que dezenas, talvez centenas de milhões de reais são gastos com o licenciamento e taxas anuais de manutenção desses softwares, e boa parte destes estão guardados nas “prateleiras” sendo subutilizados ou mesmo, em alguns casos, sem utilização. O direcionamento precipitado ou equivocado de investimentos atrapalha o avanço do emprego do geoprocessamento como um todo no Brasil.

A partir dessas informações recomendo que um executivo que esteja com a missão de encontrar uma solução baseada em geoprocessamento busque no mercado uma empresa orientada a soluções baseadas em geotecnologias, se possível sem que esta tenha como foco a venda ou revenda de algum produto/marca específicos. É bom deixar claro que não estou falando que a aquisição de produtos e/ou serviços não ocorrerá, mas que ocorra quando todos os “elos” da real solução estejam identificados e, principalmente, relacionados entre si. Uma segunda recomendação, na realidade uma lembrança: existem muitos softwares e imagens livres que, dependendo dos requisitos ou demandas, podem atender plenamente a um projeto de geoprocessamento, bastando apenas a sua correta aplicação. É bom lembrar que softwares ou imagens livres de licenciamento não significam custo zero, são coisas totalmente diferentes, mas podem significar uma redução de custos na solução objetivada.

Deixo aqui uma reflexão final: normalmente, o que realmente a sua empresa ou órgão necessita é da informação ou, de forma mais clara, dos indicadores gerenciais de Geointeligência. Então, por que não deixar a busca pelos requisitos técnicos necessários para se chegar a estas informações para uma empresa fornecedora e especializada, e focar na aquisição da informação final de real valor para sua organização e que esta seja entregue através de relatórios digitais ou, melhor ainda, acessíveis a partir de painéis WEBGIS de indicadores apresentados diretamente sobre os mapas e/ou imagens? Tenho certeza que neste formato de contrato, a grande maioria dos objetivos serão atendidos plenamente sem que traga para si toda a complexidade inerente ao tema, o que fatalmente significaria a criação de uma nova área de especialização na sua organização.

Comentários

DEIXE UMA RESPOSTA