Que venha 2017…

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Depois de um tempo ausente volto a redigir e desta vez falo sobre um assunto que muitos de vocês já devem ter refletido: 2017, o ano do qual é impossível fazer qualquer prognóstico, seja no campo político ou econômico! No atual cenário, mais uma vez, compartilho minhas impressões em relação ao desafio de empreender no Brasil, ainda mais em áreas relacionadas à Inovação Tecnológica. Como diria um amigo: “muita calma nesta hora”, mas vamos lá.

Ao longo de 2016, assistimos a maioria das empresas do setor de tecnologia reduzirem de 20% a 40% do seu quadro de pessoal, isto sem falar naquelas que sucumbiram. Começo por esse ponto para contrapor qualquer tipo de argumento que as empresas brasileiras não são criativas e/ou não se preparam para os momentos adversos, pois o que estamos assistindo é uma das piores crises econômicas causada por um colapso político e institucional, ou seja, um desastre total para toda a cadeia produtiva: empresários, funcionários, pesquisadores, parceiros internacionais, etc.

Os efeitos dessa “adaptação” à crise que estamos vivendo no Brasil, foram e ainda são sentidos por todos e a má notícia é que, na minha opinião, este período de adaptação ainda não terminou. Estimo que ainda aprofundaremos os efeitos da crise, no mínimo, até o final do primeiro semestre de 2017. Até lá, sobreviver será preciso, mas a pergunta cuja resposta não tem preço é: Como?

Não existe cartilha mágica, mas valem alguns cuidados que devem ser considerados com o objetivo de salvaguardar as operações empresariais e, se possível, renascermos no século XXI:

  • Inadimplência

Devemos estar atentos a esta realidade. Observando o que os bancos já estão realizando desde o ano passado, precisamos aumentar nossas provisões para bancar clientes que passaram a ser devedores, ou seja, na linguagem da pequena/média empresa, temos que ter dinheiro separado no caixa para bancar faturas do ‘contas a receber’ que não serão pagas. Esta já é uma realidade que começa nos governos na medida que atrasam pagamentos numa média de 60, 90, 120 dias. 11 Estados decretaram ou ameaçam decretar estado de calamidade financeira (vale lembrar que mais de 1/3 do PIB é diretamente derivado das compras de bens e serviços realizadas pelos governos. Imaginem o impacto desse cliente atrasando por meses os seus pagamentos…) e no setor privado assistimos grandes empresas utilizando suas pesadas estruturas, ou melhor, apelando às suas burocracias internas para ganharem mais prazos nos compromissos que não são negociados originalmente. É incrível, mas no meio de todo este cenário estamos assistindo as pequenas e médias empresas, relembro que são exatamente aquelas que empregam a maioria dos trabalhadores brasileiros, financiarem a custo zero a estrondosa e inexplicável máquina pública brasileira e as grandes empresas instaladas no país, que por sua vez, até então, contavam com as benesses das linhas de financiamento público e privado de menor custo.

  • Crédito

Desde o final de 2015, os bancos realinharam suas carteiras de crédito para segmentos que representam um nível de risco mais baixo. Constatamos que a escassez de crédito, principalmente para as pequenas e médias empresas, está visível a olhos nus. Por exemplo, nos primeiros meses de 2016 o Banco do Brasil fechou a linha de capital de giro garantido para as empresas que possuem contratos públicos federais por considerar alto o risco de o governo atrasar demasiadamente seus compromissos. Neste sentido, é importante não considerar que haverá crédito disponível quando sua empresa necessitar.

  • Carga tributária

É preciso pagar a conta de todos os ajustes necessários após mais de 15 anos de total irresponsabilidade com as contas públicas brasileiras e pela ilusão de que o dinheiro nunca acabaria. Aqui vale uma pergunta que é relativamente fácil de ser respondida: É possível aumentar a máquina pública de forma desenfreada, prover benefícios sociais para a população, financiar empresas instaladas no Brasil com custos subsidiados e em alguns outros países do mundo sem esperar ter que pagar por isso em algum momento? (Alguém acreditou que bastaria mandar a Casa da Moeda fabricar mais papel que tudo estaria resolvido?!).

Vamos a resposta: em uma proporção muito maior do que outros agentes da sociedade, dois seguimentos irão pagar a maior parte dessa conta, o setor produtivo (indústria) e os empregados do setor privado. Teremos que nos cotizar para pagar a conta deixada em cima da mesa, mas o que me gera inconformismo não é isso! O tamanho do Estado brasileiro é enorme e de fato nada, absolutamente nada efetivamente, começou a ser feito para enquadrá-lo na realidade atual do Brasil e do restante do mundo. Resumindo, temos que estar preparados para o iminente aumento da carga tributária e absorvê-la dentro da atual estrutura de custos das empresas, pois não será possível realizar o repasse desse custo, pois o mercado demonstra sinais claros que não existe mais espaço para aumento de preços. Ou seja, essa absorção terá que ser realizada por meio de ganho de produtividade e da otimização de processos por meio da inovação.

  • Relações trabalhistas

Aqui se aplica o velho ditado: “Há males que vem para o bem”, pois parece que finalmente mudanças que foram muito debatidas serão implementadas. Um dos fatores fundamentais para o combate à crise é o aumento da produtividade da indústria brasileira e um dos pontos que, inquestionavelmente, emperra este fator é a legislação trabalhista brasileira, em vigor desde 1943. Ledo engano daquele que vê na atual legislação uma proteção aos direitos dos trabalhadores brasileiros, pois é preciso enxergar a realidade atual do mercado de trabalho. Hoje a legislação não somente não protege, mas afasta trabalhadores dos postos de trabalho que poderiam estar sendo ocupados e que estão vagos devido a relação de custo do trabalhador (salário, encargos sociais e contribuições sociais) x produtividade, que é uma das piores do mundo conforme já demonstrei em artigo anterior.

É preciso criar uma base neste campo que consiga balizar a indústria brasileira que briga para se inserir em um contexto de produtividade global. Me intriga assistir em seminários voltados para as indústrias mais competitivas e inovadoras, sindicalistas apelarem para retórica de trabalhadores libertados no interior do Pará em condições de escravidão como argumento para a “luta” em relação aos direitos dos trabalhadores. Temos que dar tratamento diferenciado às devidas situações. Se por um lado, infelizmente, ainda temos trabalho escravo no país, em outra ponta temos indústrias buscando se inserir em padrões globais de produtividade e, principalmente, inovação. São assuntos distintos e que necessitam ser tratados de forma distinta. O caso da escravidão para mim é um crime hediondo, portanto deveria ser tratado pela Justiça Criminal, totalmente afastado dos debates ou mesmo das disputas coletivas ou individuais em torno de uma obrigação ou desobrigação para uma das partes.

Afirmo isso por experiência própria porque faço parte de uma empresa que está tentando desenvolver um satélite de observação da Terra e já chegamos à conclusão que não conseguiremos sustentar este tipo de ambição, pois não é possível pensar em inovação e ao mesmo tempo controlar o ponto de engenheiros aeroespaciais responsáveis por desenvolver segmentos da cadeia espacial, isto não é condizente! As ideias, inovações e soluções fluem a todo o tempo e em todos os lugares, isto não pode estar limitado pela folha de ponto.

Me atrevo a afirmar que a legislação trabalhista brasileira no fundo restringe a capacidade dos trabalhadores, pois estes ficam limitados em alguns casos e acomodados em outros com base nos direitos e deveres pensados no século passado. As relações trabalhistas, desde 1943, nunca foram tão tensas entre empregadores e empregados como são agora. Em suma, conheço pouca gente (empregado ou empregador) que esteja satisfeito com esta situação, sem mencionar o quesito específico da remuneração que é pouca (muito pouca…) para quem recebe e é muito cara para quem paga, só isto já serve de prova que a coisa não está funcionando.

Temos o cúmulo em nosso país de termos uma Justiça específica para questões do trabalho e um volume de milhões de processos todos os anos. Por que em países desenvolvidos sequer existe essa Justiça? Se por um lado existem empresas que tratam mal seus funcionários, por outro lado existem funcionários que tratam mal as empresas. Por que não deixar que o mercado equilibre essas questões? Relembro que estamos na era em que o acesso a informação é rápida e irrestrita. Será mesmo que a má empresa ou o mal funcionário conseguiria sobreviver muito tempo neste mundo?

Enfim, passou da hora evoluirmos as relações trabalhistas no país: jornada de trabalho flexível, reconhecimento baseado na competência e/ou produtividade ao invés de simplesmente pelo cargo que se ocupa, remuneração variável e/ou com base nas horas efetivas trabalhadas, etc. Tenho certeza que vou tocar em um ponto que será considerado absurdo por muitos, mas para mim e em rodas de empresários que frequento é unânime: facilitar a admissão, ou melhor, crescer o mercado de trabalho por meio da desoneração da demissão, talvez tenha grande impacto, só que gera temor e sequer é debatido francamente. Estamos em um país que, teoricamente, penaliza a demissão ao invés de encará-la como uma ação natural do mercado e em contrapartida, restringe a admissão. De uma forma bem didática: quem está empregado conta com o custo da sua demissão como uma das principais variáveis para se manter no emprego, ao invés de buscar se destacar. Na outra ponta, isso dificulta a abertura de oportunidades àqueles que estão na busca de uma.

Podem não concordar com um ou mesmos com todos os pontos, mas acho que ninguém discordará que necessitamos com urgência de uma revisão profunda na legislação trabalhista a fim de que a torne curta e simples, com o objetivo de pacificar as relações trabalhistas nas indústrias de forma que empresários, executivos e funcionários em geral deixem de se encarar como rivais e possam “remar na mesma direção”. Imaginem o impacto disso na produtividade da economia brasileira. Um ponto de reflexão para os reticentes de visitarem esta questão: Se em países como EUA, Inglaterra, Alemanha, Canadá isto acontece, por que no Brasil não é possível? Somos tão menos evoluídos que eles?

Já ia me esquecendo de uma questão importantíssima e, com certeza, conto com o aval de todos os trabalhadores do Brasil (empregados e empresários, pois todos trabalham e muito). Temos que pressionar fortemente nossos governantes para pararem de tirar dinheiro das empresas e dos trabalhadores com a desculpa de “contribuições” que não retornam minimamente para nós. Vou deixar alguns alertas, sem me delongar sobre eles: os bilhões de Reais que estão parados nos caixas do chamado sistema S (SESI, SENAI, SENAC, SEBRAE, etc) e que continuam sendo alimentados mensalmente a partir das Folhas de Pagamentos das empresas brasileiras, outros bilhões de Reais do PIS que retornam parcialmente para os trabalhadores, as centenas de milhões de Reais de contribuições obrigatórias para os sindicatos, tanto os patronais quanto para os dos empregados, que em muitos casos pouco ou nenhum valor agregam. Será que tudo isso retorna para os trabalhadores ou seriam muito melhor investidos se estivessem nos nossos “bolsos”?

A boa notícia!

Estamos chegando ao ponto de ruptura, muito maior do que simplesmente votar na Direita ou na Esquerda. Está claro para a maioria da população que não existe na classe política brasileira ideologia alguma e que a grande maioria dos nossos políticos somente possuem o interesse próprio camuflado por uma bandeira que lhe dê espaço para auferir os maiores ganhos pessoais possíveis, infelizmente.

A ruptura que me referi é muito mais profunda. Me refiro a uma verdadeira revolução sócio-política que será amarga, mas existe um consenso de que é necessária e que a geração economicamente ativa é quem vai pagar para que tenhamos um país melhor. Talvez tenha chegado a nossa vez de recriarmos a nossa sociedade por meio de novas bases econômicas e valores sociais. Não vou expor neste artigo a história da pós-revolução industrial século XIX, na Inglaterra, ou as décadas de 20 e 30 nos EUA, mas foram períodos conturbados da História em que esses países, enquanto sociedade, se reestruturam. Sinceramente, a crise que atravessamos no Brasil é tão profunda que o quê me faz ter esperança e continuar de pé, empreendendo em um país que vive um momento histórico de ruptura do qual veremos uma sociedade completamente desequilibrada e com poucos valores restantes, ressurgir para uma nova sociedade evoluída com base em valores e referências mais equilibrados, uma sociedade em que a consciência que só com trabalho verdadeiro e produtivo é que o país progride.

Eu acredito, realmente, que com muito esforço e perseverança conseguiremos resistir aos próximos 02 anos e acordaremos em um país reerguido! Espero que tenha ficado claro que não me refiro simplesmente aos aspectos econômicos. Com a licença de vocês, vou utilizar uma expressão popular: “o buraco está muito mais embaixo” do que apenas a economia, a atual crise econômica é só uma consequência de toda a crise de valores que passamos.

Me despeço de todos vocês consciente que fugi totalmente do propósito deste canal de conteúdo especializado, o Processamento Digital, mas realmente depois de tudo que assistimos e, particularmente, o que eu passei em 2016, me permiti fazer este desabafo!

Desejo a todos os brasileiros que o nosso sacrifício não seja em vão e que entreguemos um país melhor e mais justo para as gerações que irão ingressar no mercado a partir de agora. Feliz 2017!

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